Um kitesurfista é visto da praia de Ipanema, no Rio de Janeiro | Carl DE SOUZA \ AFP

Foi sua partida repentina, véspera do Dia dos Mortos, quase ao mesmo momento de Nelson Freire, como uma conjunção de harmonia tristíssima, um adágio prenunciando o réquiem, apequenado diante do tamanho do vazio. Deixa a vida quem mais louvou a vida, as artes, a literatura, as ciências, os amigos e as perfeitas relações afetivas que por escolha construiu, como a socióloga e professora Maria Isabel.
Pensadora à vera, sempre interessada em tudo o que se referia à pandemia da Covid-19, sua evolução e prognóstico, os avanços e decepções na ciência, com sua inteligência luminosa entendera desde logo que a solução não estava em remédios e sim na prevenção através das vacinas. Vibrara com os primeiros vacinados e com que convicção aguardou sua hora de se vacinar e receber reforço! Viveu o lado duro da epidemia em sua própria casa, passando pelo grave período de doença, com o marido atingido pela Covid, em situação limite, sempre confiante nos cuidados e no que a medicina poderia fazer. Já acompanhara com dedicação minha doença em período ainda de grandes inseguranças, permanentemente trazendo uma mensagem positiva, além de seus típicos mimos gastronômicos. Gregária de natureza, ansiava pelo momento de libertação para voltar a receber amigos, sem as amarras dos protocolos epidêmicos e contente de suas taxas de anticorpos alcançadas.
Escrita de pena sofisticada, seus livros revelam fina sensibilidade, no trato de assuntos complexos e sobretudo num percorrer as avenidas “sem freio e sem marcha à ré” da juventude, seus conflitos, descobertas, comportamentos e capacidade criadora. Soube registar a especificidade de sua própria experiência de vida, em seu primeiro livro, “Maternidade: um destino inevitável”, no qual gravita sobre esse dilema feminino essencial com argúcia e originalidade, levando o leitor a pensar, inexoravelmente sobre o tema.
Quase contemporâneo, “Masculino/Feminino: tensão insolúvel”, percorre a subjetividade à luz de sua relação com as ciências sociais, suas categorias, conflitos e emoções contextualizadas na sociedade brasileira.
“A explicitação de um horizonte de finitude tem produzido tanto uma descarga explosiva de mobilizações – um “espernear” contra o sistema, quanto o avanço de uma grande mancha de desistência, do niilismo à depressão, doenças desaceleracionistas derivadas da própria aceleração, mas também reconhecíveis num aturdimento humano diante da máquina, no torpor e sedentarismo bulímico, denunciados por Agambem”. Este um registro contundente sobre o que ela define como o “redesenho das formas de vida” em seu último livro, “Cartografias da Paragem”, por ela organizado e com outros autores.
Sua passagem pelo pós-doutorado na Universidade Paris V-René Descartes, sob a orientação de Michel Maffesoli, intensificou uma relação de profundo respeito intelectual e de amizade, e lhe rendeu novas inspirações. O aguilhão do digital que já fora tratado em textos anteriores, e o tempo convertido “em maior ativo hoje”, confiscado pela métrica do delivery e política de resultados, retorna com força e extremo cuidado, num desbravamento do universo jovem, em “Criatividade, juventude e novos horizontes profissionais”, organizado em conjunto com o sociólogo português José Machado Pais.
Eduardo Lourenço em seu antológico “Mitologia da Saudade”, essa palavra única que nossa língua carrega com força e doçura nos descreve, esse sentimento como o mais intenso, intraduzível. “Descida no coração do tempo para resgatar o tempo – o nosso, pessoal ou coletivo – é como uma lâmpada que se recusa apagar no meio da noite”.
Não é por acaso ou cordial formalidade que as incontáveis manifestações de solidariedade e condolências se marcam pelo reconhecimento de seu valor intelectual e inquieta presença em nossa contemporaneidade. Sua delicadeza estética, rigor ético, fidelidade aos amigos e alunos, solidariedade humana genuína, são marcas de sua passagem por esse mundo que não foi capaz de acolhê-la em sua exigência.
São valores que Maria Isabel deixa para sua neta Helena e outros netos que esperamos com alegria pressentida, na noção mais exata de quem olhou com encantamento tantos crepúsculos da tarde na serra, precedendo a noite, mas sobretudo de quem olhou o crepúsculo da manhã que anunciava o sol.

(Margareth Pretti Dalcolmo, irretocável, para O Globo, em memória de Maria Isabel Mendes de Almeida)