Territórios Literários: novas tecnologias, práticas de leitura e de compartilhamento na contemporaneidade

Coordenação: Maria Isabel Mendes de Almeida

Período: 2016 – presente

Desinteresse pela leitura, alheamento à realidade e fixação por novas tecnologias são lugares comuns facilmente atrelados aos jovens da contemporaneidade. Em consonância com a necessidade de mudar a pergunta em torno de “quanto se lê” para a problemática de “como se lê”, esta pesquisa se dedica a investigar as práticas de leitura por meio de um amplo espectro de dispositivos, plataformas e suas variadas possibilidades de utilização em espaços físicos e virtuais. Sob esta perspectiva, é pensado o caráter híbrido e, por vezes, fragmentado da circulação de informações em um contexto de mobilidades e deslocamentos que implicam em reinvenções tanto da cidade, quanto do espaço íntimo hermético naturalizado como lócus da experiência de leitura. Interessa-nos tematizar como o acesso a tempos e a espaços outros, propiciado por essa experiência é atravessado pelo desejo de encontro e de compartilhamento com outros leitores; impulsionado por plataformas virtuais como o Youtube e por ocupações sutis e significativas do tecido urbano que se valem de bibliotecas livres, ninhos de livros em pontos de transporte público, sarais e intervenções poético-visuais em torno da celebração da leitura no ambiente da cidade. Nossos interlocutores são booktubers, jovens que compartilham suas experiências com os livros por meio de vídeos na internet e ainda coletivos mobilizados pela produção e circulação de artefatos literários diversos – gibis, livros, instalações – no espaço público. Tais artefatos são tomados como artifício metodológico que nos leva ao encontro de diferentes modos de estar face a face promovidos pelo jovens em questão, que em nada se assemelham ao estereótipo do leitor solitário e anti social que se refugia da agitação da urbe. O olhar atento à variedade de suportes e de cenas de interação, volta-se, portanto, ao dinamismo da experiência e sua potência para ocupar, reapropriar, fabular e manusear realidades e lugares.

Juventudes e desmobilizações da vida urbana na contemporaneidade

Coordenação: Maria Isabel Mendes de Almeida

Período: 2014 – 2016

A pesquisa atual gira em torno do que chamamos de “desmobilizações” juvenis na vida urbana – uma série de fenômenos bastante diversos que, entretanto, são atravessados pela questão comum de uma espécie de cansaço ou esgotamento da mobilização infinita moderna, que dá lugar a uma série de iniciativas de redesenho das formas de vida rumo a uma desaceleração ou menorização, através de composições situadas e resilientes. Estes fenômenos envolvem desde reorganizações nas formas de morar, comer ou trabalhar, até iniciativas de “retirada” da metrópole e o fenômeno do pós-consumismo, dentre outras manifestações contemporâneas face à captura capitalista no que diz respeito à gestão do tempo, à ocupação do espaço, e à administração dos corpos e dos afetos.

Reinvenções da solidão na juventude contemporânea

Coordenação: Maria Isabel Mendes de Almeida

Período: 2013 – presente

A associação entre juventude e solidão revela-se, no mínimo, como algo improvável, remoto e disfuncional no âmbito da sociedade contemporânea e do espírito de época em que vivemos. Isto porque o convite quase que onipresente a que esta sociedade nos convoca – sobretudo no plano de sua população jovem – é o do gregarismo, o da conexão, o da participação no plano da coletividade e da tendência permanente ao convívio interativo e partilhado. Aos estados de solidão e isolamento entre os jovens é, portanto, geralmente conferida a pecha de estranheza e de anormalidade, no contexto daquilo que se espera de um jovem “saudável”, “equilibrado” e capaz de “bem ajustar-se” às demandas da sociedade mais ampla.

Encontrar as “solidões” tal como vividas pelas “juventudes” erige-se numa via privilegiada para afirmar e reconhecer a multiplicidade de modos de vida que compõem o contemporâneo e que fazem a densidade deste tempo, na medida em que permite contribuir para questionar a construção generalizante e unívoca da imagem do jovem. É nesse sentido que dedicaremos nossos esforços atuais de pesquisa à busca pela conciliação desses dois temas considerados como pouco prováveis de serem observados em sintonia – juventude e solidão. Sendo assim, o nosso interesse central de investigação ancora-se sobre a ampliação e a re-significação da condição da solidão entre os jovens, procurando avançar sobre as conotações de invenção, criação e potência dos modos de vida solitários. Através do recurso da conversa, da entrevista informal, da convivência e do paulatino rastreamento descritivo, propomos percorrer a variedade de experiências que têm lugar enquanto gradações num continuum entre a “solidão acontecida” e a “solidão deliberada”, entre o “sentir-se sozinho” e o “estar solitário”; entre a solidão e a solitude.

Profissionalização da criatividade, criativização da profissão: jovens, construção de si e horizontes profissionais

Coordenação: Maria Isabel Mendes de Almeida & Fernanda Eugênio

Período: 2009 a 2013

A intenção do desenvolvimento de uma abordagem comparativa entre esses dois universos de escolhas ou eleições profissionais vincula-se à nossa hipótese de fundo, que aponta exatamente para uma reconfiguração dos regimes de oposição que até então caracterizavam ambos repertórios profissionais. É, pois, a partir de um recente movimento de maximização de valores como competência, profissionalismo, expertise e desempenho, agora aliados aos valores da criatividade, da ludicidade e do prazer colocados em pé de igualmente – que uma perspectiva de desmanche de tais oposições parece se operar. Este é um movimento cuja lógica pretendemos mapear ao longo do processo de pesquisa.Tomando as culturas jovens como protagonistas centrais desta investigação, nosso argumento inicial vem debruçando-se sobre a aposta nos crescentes e significativos movimentos de contaminação recíproca entre as noções de produtividade e criatividade. Mais do que isto, pretendemos procurar demonstrar os regimes e mecanismos da subjetividade que estão em jogo nos processos simultâneos de criativização da profissão – movimento que estaria fazendo passar o valor da criatividade, mais habitualmente atrelado ao universo das artes, ao espaço da “empresa”, e a profissionalização da criatividade – movimento que estaria cada vez mais, conferindo à criação artística uma envergadura profissional, afetada pelo funcionamento competente característico dos modelos empresariais.

No âmbito das expressivas reformatações a que está submetida hoje a lógica da profissionalização e dos diversos sentidos assumidos pela noção de produtividade, estará incluída na investigação uma espécie de ressemantização do princípio da competitividade. Acompanharemos através de quê mecanismos esta noção vem se traduzindo em uma aposta significativa não mais no antagonismo ao Outro, enquanto instância a ser eliminada no jogo da profissionalização – mas ao contrário, através dos dispositivos de cooperação e compartilhamento entre sujeitos que contribuem cada um com sua parte na rede de talentos e competências para o desenlace do produto final. Introduz-se assim uma nova dinâmica no universo do trabalho, que se traduz, predominantemente, em uma “tática” associativa e agregadora na direção do fortalecimento do resultado final – para o qual converge a criatividade e o talento de todos – e não mais da ênfase na perspectiva atomizada e compartimentada da lógica do “cada um por si” competitivo.

Nada além da epiderme: a performance romântica da tatuagem

Coordenação: Maria Isabel Mendes de Almeida

Período: 1998 a 2000

A partir dos anos 90, a opção por se tatuar converteu-se em prática crescentemente visível e característica das culturas jovens urbanas. A tatuagem, e na seqüencia outras práticas de modificação corporal (piercings, brandings, burnings, cuttings e stretchings), configuraram-se como marcadores, na superfície da pele, da contemporânea emergência da juventude não mais como faixa etária, mas como estilo de vida. O corpo tornado objeto de inúmeros processos de redesenho, manipulação, aprimoramento e reconstrução também no body building, nos regimes alimentares, nas radicais inovações cosméticas, nas cirurgias estéticas etc, aponta para uma viragem na forma de organização da subjetividade: não mais opondo a carne ao espírito, mas convertendo-a em arena de proclamações instantâneas do self.

Esta pesquisa vinculou-se a um conjunto de preocupações conceituais e teóricas mais amplas relacionadas à dimensão da subjetividade, das identidades e do imaginário na sociedade contemporânea. O tema da tatuagem foi aqui abordado como uma espécie de “porta de entrada” para o universo de questões relacionadas às culturas jovens urbanas e suas novas gramáticas subjetivas.

A pesquisa foi realizada junto a um grupo de jovens vinculados ao universo da tatuagem no Rio de Janeiro. A análise das motivações centrais que estão em jogo na construção de uma opção por se tatuar nos permitiu montar um inventário de categorias centrais para a ampliação das reflexões sobre processos de constituição de identidades e de organização de estilos de vida, assim como de “gramáticas alternativas” que apontam para novas formas de organização subjetiva.

O recurso à prática da tatuagem enquanto marca definitiva converteu-se igualmente em importante instrumento de verificação, no plano do imaginário, do paradoxo entre a dimensão de descartabilidade predominante na atualidade e o registro da irreversibilidade. Este paradoxo apresenta-se de modo particularmente “dilacerante” na sociedade brasileira, exigindo, portanto, recombinações e rearranjos “estratégicos” no plano das subjetividades em questão.

Da Bossa-nova à Tropicália

Coordenação: Santuza Cambraia Naves

Período: 1998 a 2001

 Esta pesquisa recortou um período da história cultural do Brasil – 1958-68 – que se sobressaiu pela emergência de uma série de propostas estéticas, como o construtivismo nas artes plásticas e na literatura, o Cinema Novo, a questão nacional-popular introduzida pelo CPC (Centro Popular de Cultura), o projeto plástico de Hélio Oiticica, o teatro desenvolvido pelo Grupo Oficina e a Tropicália, movimento liderado pelos músicos populares baianos, notadamente Caetano Veloso e Gilberto Gil. Privilegiou-se nesta pesquisa a produção musical do período. Em primeiro lugar o momento de transição, em que o samba-canção, gênero predominante nas décadas de 40 e 50, cede terreno às experimentações formais dos bossa-novistas. Em seguida, a guinada cepecista, caracterizada pela politização do universo musical. Em meio a tudo isso – e no contexto dos festivais de música que se tornam correntes a partir de meados dos anos 60 – irrompe a tropicália, colocando novas questões de forma e substância.

Para a realização desta pesquisa, recorreu-se a periódicos e livros da época, discos e outros suportes de documentação sonora. Entrevistas também foram realizadas com alguns dos principais músicos e ideólogos do período, como Carlos Lyra, Wanda Sá, Edu Lobo e Chico Buarque de Hollanda. Os primeiros resultados da pesquisa reverteram em comunicações apresentadas em seminários e congressos, além de artigos publicados em revistas acadêmicas. Foi publicado ainda, no primeiro semestre de 2001, como um dos resultados da pesquisa, o livro intitulado Da bossa nova à tropicália (Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editora, Coleção Descobrindo o Brasil), de autoria da coordenadora do NUM, Santuza Cambraia Naves.

Em maio de 2001, como encerramento da pesquisa, foi realizado o Seminário Da Bossa Nova à Tropicália, no Teatro João Theotônio, da Universidade Candido Mendes. O evento, coordenado por Santuza Cambraia Naves e Paulo Sérgio Duarte, contou com o apoio da FAPERJ e com a participação de escritores, cantores, artistas e jornalistas, entre eles Arnaldo Jabor, Italo Moriconi, Ruy Castro, Sergio Cabral, Caetano Veloso, Roberto Menescal, Antonio Cicero, Susana Moraes e José Miguel Wisnik.

Noites Nômades: espaço e subjetividade nas culturas jovens contemporâneas

Coordenação: Maria Isabel Mendes de Almeida & Kátia de Almeida Tracy

Período: 2000 a 2003

Novos nômades metropolitanos, os jovens cariocas desenham incessantemente sua diversão noturna através de deslocamentos grupais, retraçando os contornos da cidade de maneira inquieta e mutante. A “noite” – ou a night, como preferem chamá-la – deixa de poder medir-se e ser experimentada como temporalidade e converte-se em uma categoria fundamentalmente espacial. As relações intersubjetivas, trafegando entre a diversão e a gravitação presentes na zoação, acolhem ainda a modalidade afetiva e performática do ficar. Novas formas de sociabilidade e afetividade se desenvolvem em torno dessas práticas, fazendo-se acompanhar por uma cultura visual característica da night, construída em torno da “estética básica” e atravessada pelas micromídias que circulam pelas festas. A comunicação materializa-se e o pensar, fisicalizado, exprime-se em formas narrativas não-discursivas, que sublinham a coletivização das experiências e o “estar lá” como nova configuração do ser.

A pesquisa ancorou-se em entrevistas e no acompanhamento etnográfico das trajetórias jovens em seus fluxos e deslocamentos noturnos, povoando circunstancialmente ruas e “ilhas de cimento”, portas de estabelecimentos noturnos, bares, boates, shoppings-centers e lojas de conveniência de postos de gasolina, abertos durante toda a madrugada.

Crítica cultural e cultura popular

Coordenação: Santuza Cambraia Naves

Período: 2001 a 2003

Contando com financiamento da FAPERJ, pretendeu-se, neste projeto, analisar alguns aspectos da crítica intelectual e musical no Brasil e compreender seus padrões de julgamento. Trata-se de uma reflexão importante, na medida em que o exercício da crítica tem implicações consideráveis para a prática da cidadania e da democracia. Tanto no âmbito acadêmico da reflexão intelectual quanto na esfera da cultura popular, as mediações via imprensa e outros meios de comunicação atuam como uma espécie de filtro que seleciona o que, em tese, deverá ser consumido. Um problema que se coloca no presente, portanto, refere-se às normas atuais de se realizar a crítica. Torna-se importante procurar entender os valores subjacentes à atividade crítica e mesmo, em última análise, se há algum valor que permita o próprio exercício desta atividade.

Foram entrevistados, para esse projeto, críticos nas áreas musicais e literárias, como Sérgio Cabral, Arthur Dapieve, Luiz Carlos Maciel, Hermano Vianna, Nelson Motta e Silviano Santiago, entre outros. Como embasamento teórico, foi recolhido material de pesquisa em fontes primárias na Biblioteca Nacional e outros centros de pesquisa.

Funk e Hip-Hop no Rio De Janeiro

Coordenação: Santuza Cambraia Naves

Período: 2001 a 2004

Este projeto visa discutir as bases estéticas, políticas, culturais e sociais do Funk e do Hip-Hop na atualidade brasileira em geral e carioca em particular. Esses movimentos encontram-se, desde de final da década de 1980 e início dos anos 90, em ascensão no meio musical brasileiro. Além disso, o Funk e o Hip-Hop são manifestações sociais complexas, indo além de seus aspectos musicais. Como movimentos que englobam diversas esferas sócio-culturais presentes nos dias atuais, eles influenciam e são influenciados por fatores mais amplos da nossa sociedade, como as relações de mercado, consumo, afetividade, cidadania, violência, tecnologia, etc.

A pesquisa é dividida em dois grandes módulos temáticos, em que são priorizados os aspectos musicais dos movimentos (a questão dos processos de composição, a relação dos movimentos com a crítica musical e os próprios músicos e cantores, sua presença na mídia, sua relação com a academia, etc.) e o impacto causado por estes movimentos na juventude urbana brasileira (suas afetividades e subjetividades, “estilos de vida”, questões relacionadas ao vestuário e locais de freqüência, etc.).

A Rosa Dos Ventos: posições e direções da arte contemporânea no Brasil

Coordenação: Paulo Sérgio Duarte

Período: 2003 a ?

Os impasses do projeto construtivo e o esgotamento da Nova Figuração no Brasil levaram, a partir dos anos 1970, ao desenvolvimento de poéticas que incorporavam a herança das pesquisas de concretos e neoconcretos, e desenvolviam experiências em consonância com os movimentos conceituais da Europa e da América. A produção de arte no Brasil nesse período é marcada por contribuições originais: suas exigências reflexivas vêm sempre acompanhadas de uma poderosa e evidente contundência plástica, diferenciando-se das correntes, especialmente anglo-saxônicas, que na mesma época abdicavam da visibilidade a favor de uma reflexão puramente teórica para questionar a própria arte. A individualização das poéticas, apontando para diversas direções, abriu um novo campo para a arte no Brasil.

Partindo da obra de Antonio Dias, Carlos Fajardo, Carmela Gross, Cildo Meireles, Frederico Nasser, Iole de Freitas, José Resende, Marcelo Nitsche, Tunga e Waltercio Caldas, a pesquisa examinou a produção contemporânea e verificar a possibilidade de correlações entre o momento histórico da arte na década de 1970 / 80 e o atual.

As substâncias e as cenas: culturas jovens e espaços interativos

Coordenação: Maria Isabel Mendes de Almeida & Fernanda Eugênio

Período: 2003 a 2006

A partir de intensa etnografia e do acúmulo de um imenso conjunto de entrevistas abertas, nos dedicamos a refletir sobre os impactos subjetivos e sobre as novas sensibilidades produzidas na interface entre o consumo jovem e urbano de ‘substâncias’ – notadamente as sintéticas, como o ecstasy – e as cenas eletrônicas contemporâneas. Focamo-nos em delinear o tipo de gerenciamento de si acionado pelos jovens em festa, marcado pelo cálculo e pela “competência”, e voltado para a produção de uma espécie de “intensidade extensa”. Isto é, em sintonia com um espírito de época que elegeu o bem-estar como valor maior, e com o imperativo de “formação permanente” que caracteriza as sociedades de controle contemporâneas, observamos entre esses jovens um uso pragmático das “drogas”. Instrumentalizadas, elas funcionam como espécie de “turbinamento para a ação”, e a elaboração de um receituário próprio e idiossincrático, no uso, aproxima substâncias legais (álcool, cigarro, remédios e energéticos) e ilegais (ecstasy, ácido, GHB, special K, cristal, cocaína, lança-perfume, maconha), todas concorrendo na montagem de uma pragmática “produção farmacológica de si”.

Os resultados de nossas pesquisas apontaram para um recurso às substâncias mais variadas que as investia de um caráter de “atalho” para um bem-estar em metaestável equilíbrio e que, simultaneamente, as desinvestia do aspecto “transgressivo” ou “escapista” que eventualmente pudesse ter tido para outras gerações. Além de uma dimensão fortemente etnográfica, a pesquisa desdobrou-se também em uma comparação com as paisagens existenciais da contracultura, realizada a partir de entrevistas com homens e mulheres cariocas que, nos anos 60 e 70 do século XX, viveram experiências com “drogas” associadas à experiência do desbunde.